O total de veículos no País mais que dobrou na última década e atingiu 64,8 milhões no final de 2010. Os dados são do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) e indicam que os automóveis (37,1 milhões) representam 57% da frota brasileira. Só em julho de 2011, segundo balanço mensal da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram comercializados 306.231 veículos.
Para cada começo há um fim. Carro novinho em folha que está hoje rodando pelas ruas e estradas vai acabar um dia em ferro-velho. Considerando que a vida útil de um automóvel se resuma entre 10 e 20 anos, a pergunta é inevitável: para onde vão os veículos que saem de circulação?
No Brasil, o destino mais comum tem sido o ferro-velho. Mas especialistas em meio ambiente garantem que o caminho mais correto é a reciclagem. A velha e enferrujada sucata pode se transformar em matéria-prima valiosa. Se for reciclada, se transforma em aço e pode voltar às ruas como parte de outros carros.
A Passos Lentos
A "engenharia reversa" para veículos é realidade nos Estados Unidos, Japão e na Europa. No caso dos países europeus, as próprias montadoras são responsáveis por reutilizar os componentes dos carros. No Brasil, logística reversa e a reciclagem de veículos ainda engatinha, principalmente porque não há legislação específica exigindo o processo. Como não há obrigatoriedade, os veículos acabam sendo descartados em desmanches e depósitos, ficando expostos ao tempo e perdendo a possibilidade de terem suas peças reaproveitadas.
Apesar do Brasil ter ótimos indicadores de reciclagem em materiais como papel, alumínio e vidro, apenas 1,5% da frota brasileira que sai de circulação vai para a reciclagem, segundo estimativa do Sindicato do Comércio Atacadista de Sucata Ferrosa e Não-Ferrosa (Sindinesfa). O oposto ocorre nos Estados Unidos e Europa, onde o reaproveitamento dos carros chega a 95%.
O IBDS avalia que, além da falta de legislação específica sobre a questão, outro obstáculo para a consolidação de uma cultura de reciclagem de veículos no País é a ausência de empresas especializadas nesta atividade. Um problema que já deixou de existir na nossa vizinha Argentina, onde um centro de reciclagem é exemplo bem-sucedido de tratamento de veículos fora de uso, produzindo peças a partir do desmanche legalizado de 250 automóveis por mês, reaproveitando 25 mil peças desde 2005.
Um Negócio
Levantamento do Sindinesfa também aponta que os veículos correspondem a uma pequena parte de um montante de 7,8 bilhões de toneladas mensais de sucata produzidas no País, um mercado que movimentou nos últimos anos cifras acima de R$ 3 bilhões. Ainda conforme o sindicato, um automóvel pode ter de 30 a 50 mil peças, das quais 75% são de ligas metálicas.
Estudos da entidade avaliam a vantagem econômica de reciclar os veículos, um incentivo àqueles que fazem da reciclagem um negócio muito lucrativo. A movimentação do mercado de consumo formal, por meio da venda de peças reutilizáveis, receberia um significativo incremento com o reaproveitamento. O ganho para o meio ambiente seria a redução da poluição, por meio da remoção e destinação dos componentes considerados perigosos, como baterias e fluidos.
O sindicato também destaca a responsabilidade social da reciclagem: o aumento de empregos, já que a tendência é que novas empresas se estabeleçam para atender a demanda gerada. Até mesmo o segmento da saúde teria seu lucro: o processo combateria a proliferação do mosquito da dengue, uma vez que os carros abandonados a céu aberto contribuem para o armazenamento da água proveniente de chuvas.
No Caminho
O Detran do Rio Grande do Sul é um dos pioneiros na reciclagem de sucatas e veículos abandonados nos depósitos da autarquia. No primeiro semestre deste ano, foram reciclados em todo o estado, como materiais inservíveis, 4.268 veículos. A previsão para o segundo semestre é efetuar a destinação correta de aproximadamente 3,7 mil. O processo de reciclagem dá conta, em média de 80 veículos por dia. Para cada quilo de materiais reciclados, o governo gaúcho recebe R$ 0,19 - e cada compactação gera até 350 quilos de material.
A reciclagem acontece em três momentos: descontaminação, compactação e trituração, sendo a primeira e segunda executadas no pátio dos centros de remoção e depósito e, a última, na empresa siderúrgica Gerdau, vencedora da licitação para o serviço. Na descontaminação, são retirados do veículo bateria, cilindro de gás (combustível), catalizador e fluídos (óleo e combustível). Tanto a estação de descontaminação, quanto a unidade de compactação são itinerantes e podem se deslocar por todo o Rio Grande do Sul. Na compactação, o veículo é colocado em uma prensa para reduzir o seu volume, facilitando o transporte, e para descaracterizá-lo, de forma a impedir qualquer reuso de peças. Já na trituração, o veículo compactado é colocado em equipamento especial para ser triturado e ter separado o material ferroso, que será então encaminhado à reciclagem.
Apesar de tramitar, há dez anos, na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 5.979/2001 é outro avanço em relação à reciclagem de veículos. O documento trata da Inspeção Técnica Veicular (ITV), que além de discutir a regulamentação de mecanismos de inspeção para controlar a emissão de gases e ruídos pelos veículos automotores, também prevê a destinação adequada dos automóveis sem condições de circular no País. Por conta disso, o Ministério das Cidades, por meio do Denatran, encomendou um estudo à Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), sobre a possibilidade de ser criado um programa nacional de reciclagem de veículos, envolvendo desde a indústria automobilística até as siderúrgicas. No entanto, ainda não existe nenhum resultado sobre o assunto.
Dono da maior frota do País, com algo em torno de 21,7 milhões de veículos registrados, São Paulo também estuda a implantação de programa oficial de reciclagem de automóveis. A ideia foi divulgada em fevereiro deste ano, pela Secretaria do Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia. A proposta de criação de centros de reciclagem vai possibilitar o esvaziamento dos pátios do Detran paulista, onde existem milhares de veículos apreendidos, além de permitir a renovação da frota.
Metal Sustentável
A importância da reciclagem de veículos também foi destacada pelo coordenador de reciclagem da Associação Brasileira do Alumínio(Abal), Henio De Nicola. De acordo com ele, produzir meios de transporte econômicos e com baixas taxas de emissões de CO2 é palavra de ordem, atualmente, em todas as montadoras do planeta, pressionadas pela dependência do petróleo, ameaça das mudanças climáticas e novos hábitos dos consumidores.
Como veículos mais leves consomem menos combustível e são menos poluentes, substituir materiais pesados pelo alumínio, um terço mais leve que o aço, nas linhas de montagem, é alternativa eficaz e viável para responder a essa meta. "Só o alumínio é leve e resistente ao mesmo tempo e já oferece equipamentos e tecnologias para todas as aplicações automotivas e de transportes", assegura.
Para ilustrar sua colocação, De Nicola cita um estudo realizado pelo International Aluminium Institute (IAI), que aponta que a cada quilo de alumínio usado em substituição ao aço, ao ferro fundido ou ao aço de alta resistência, cerca de 15 a 20 quilos de emissões de gases de efeito estufa são poupados por componente, a depender do caso.







