domingo, 11 de novembro de 2012

O desafio da coleta seletiva em Belo Horizonte


Com baixíssimo índice de reciclagem de resíduos sólidos, Belo Horizonte está longe de atingir a meta estabelecida pelo país para 2014. Mas dá para mudar esse cenário.


O rascunho do desenho vai para a lixeira azul, dos papéis. A garrafinha do iogurte para a vermelha, dos plásticos. Alunos do maternal do Colégio Sagrado Coração de Jesus, no Funcionários, já sabem de cor a lição da coleta seletiva. Com apenas 2 anos, Sophia Silva Machado não consegue ainda usar a palavra reciclagem, mas já entende que as caixinhas vazias do suco de uva não precisam ser jogadas fora, podem ser usadas para construir brinquedos, como o castelinho que fez. "Meu pai achou lindo", conta. Ninguém questiona a importância da conscientização ambiental ainda na infância. Os educadores, porém, lamentam que o aprendizado das salas de aula seja desperdiçado quando as crianças chegam em casa. "A maioria das famílias daqui ainda não tem a cultura da separação do lixo", admite Flávia Miguez, a professora da turma de Sophia. Os números mostram que ela está certa. Belo Horizonte está muito distante da meta que deveria, por força de uma lei federal, ser atingida até 2014: a de não mais aterrar material reciclável. A coleta seletiva representa apenas 0,8% — 28 toneladas — do total de 3 500 toneladas de lixo produzidas diariamente na cidade. Comparado aos dados de capitais como Porto Alegre e Curitiba, onde o índice chega a 20%, o resultado é vergonhoso. E, mesmo tendo como referência a média nacional, que é de 3%, não há nada do que se orgulhar. 

Por que reciclamos tão pouco? Os moradores culpam a administração municipal, que não investe em um sistema adequado de coleta dos resíduos recicláveis. Dos 482 bairros e favelas do município, apenas trinta contam com coleta seletiva em domicílio. Isso significa que somente 354 000 moradores, ou 15% da população, são beneficiados pelo serviço. A prefeitura se defende, diz que falta mesmo é conscientização e engajamento. E, convenhamos, tem lá alguma razão quando lança mão desse argumento. "A gente chega a varrer ruas do Centro até nove vezes por dia", afirma Lucas Gariglio, diretor de planejamento da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU). "Se a população ainda joga lixo no chão, como exigir mais do que já é feito?" 

O fato é que, embora a maior parte dos belo-horizontinos se diga simpatizante da "teoria dos três erres" (reduzir, reutilizar e reciclar), são raros os exemplos como o da família do auditor fiscal Wertson Souza. Pelo menos uma vez por semana, ele desce para a garagem do edifício onde mora, no Buritis, com vários sacos de lixo para ser colocados no porta-malas do carro. De lá, segue em busca de algum ponto de coleta onde poderá deixar, devidamente separados, os resíduos — papel, metal, vidro e plástico acumulados por ele, a mulher, Kátia, e as filhas, Raíssa e Bárbara. "É trabalhoso, mas também gratificante", afirma. O auditor é um obstinado que, há anos, tenta convencer amigos e vizinhos a aderir à prática sustentável. Quando era síndico de um condomínio no Anchieta, implantou a coleta seletiva e viu apenas nove dos 112 apartamentos participar do modelo. 

"O belo-horizontino é extremamente omisso", acusa Rafael Tobias, que é diretor do departamento de gestão ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e estuda a destinação de lixo. "Todos já deveriam estar bem informados, conscientes e sensibilizados", diz. Afinal, a discussão não é nova. Há mais de doze anos, em 1999, a catadora Maria das Graças Marçal, mais conhecida como dona Geralda, estava em Nova York, a convite da Organização das Nações Unidas (ONU), para falar do trabalho da Associação dos Catadores de Material Reciclável (Asmare). A associação que coordena já ganhou vários prêmios e é considerada uma referência nacional. Segundo ela, cada um dos 190 agentes ambientais da Asmare, que é como são hoje chamados os catadores, recolhe 200 quilos de lixo por dia. Apenas metade disso é de resíduo reutilizável.

Fonte: Planeta Sustentável 
 

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