“O Brasil vivencia nos últimos 20 anos uma escalada na desova de
descartes de uma forma que não têm precedentes. Entre 1991 e 2000 a
população brasileira cresceu 15,6%. Porém, o descarte de resíduos
aumentou 49%. Sabe-se que em 2009 a população cresceu 1%, mas a produção
de lixo cresceu 6%”, constata o pesquisador.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – De modo geral, como você define o problema do lixo na sociedade moderna?
Maurício Waldman – Há um problema mundial
relacionado ao lixo que é inegável. Neste prisma, um dado que chama a
atenção é fornecido pela literatura técnica relacionada com o tema.
Admite-se que atualmente exista um descarte mundial de 30 bilhões de
toneladas de resíduos por ano. Seria meritório advertir que os lixos já
assumiram os contornos de uma calamidade civilizatória. Em termos
mundiais, apenas a quantidade de refugos municipais coletados – estimada
em 1,2 bilhões de toneladas – supera nos dias de hoje a produção global
de aço, orçada em 1 bilhão de toneladas. Por sua vez, as cidades ejetam
rejeitos – 2 bilhões de toneladas – que superam no mínimo em 20% a
produção planetária de cereais, demonstrando que o mundo moderno gera
mais refugo que carboidrato básico.
Contudo, mesmo esta notável volumetria de resíduos parece não
satisfazer a obsessão em maximizá-los. O resultado disso é uma autêntica
cascata de lixos. Exemplificando, a população norte-americana cresceu
quase 2,5 vezes entre 1960 e o ano 2000. Porém, o já magnânimo descarte
dos Estados Unidos praticamente triplicou desde 1960.
Adicionalmente, outras peritagens mostram que no ano 2020 a União
Europeia estará descartando 45% mais rebotalhos do que em 1995. Na União
Europeia, um pormenor candente é que o lixo domiciliar se expandiu
inclusive em países com evolução populacional pouco expressiva. No caso
espanhol, sete anos (1996-2003), foram suficientes para incrementar os
refugos em 40%.
IHU On-Line – E no Brasil, como se situa este problema?
Maurício Waldman – Malgrado uma nebulosa peça
acusatória culpabilizar os países do Norte pela geração do lixo, o
Brasil – ao lado de outras nações do hemisfério Sul – ocupa uma incômoda
posição na questão dos refugos. No caso, tanto pelas proporções como
pela média per capita. Na verdade, o lixo brasileiro supera a maioria
das nações periféricas. Não seria demasiado sinalizar, que conquanto
corresponda a 3,06% da população mundial e 3,5% do PIB global, o Brasil
seria, por outro lado, origem de um montante estimado entre 5,5% do
total mundial dos resíduos sólidos urbanos. Dito de outro modo: o país é
um grande gerador mundial de lixo e deve assumir sua responsabilidade
em contribuir para com a resolução do problema.
IHU On-Line – Quais os principais e mais urgentes desafios a serem enfrentados?
Maurício Waldman – A situação não admite vacilação e precisamos adotar de verdade os famosos quatro “Rs”: repensar, reduzir, reutilizar e reciclar.
A ordem de aplicação é exatamente essa, começando com repensar e
terminando com reciclar. Repensar a sistemática de ejeção dos lixos é
fundamental, pois o problema, apesar de normalmente visto como uma
problemática econômica, é, em larga escala, um tema também pavimentado
por injunções sociais, políticas e culturais.
No caso brasileiro, o país vivencia nos últimos 20 anos uma escalada
na desova de descartes de uma forma que não têm precedentes. Entre 1991 e
2000 a população brasileira cresceu 15,6%. Porém, o descarte de
resíduos aumentou 49%. Sabe-se que em 2009 a população cresceu 1%, mas a
produção de lixo cresceu 6%. Essas dessimetrias são também evidentes em
dados como os que indicam a metrópole paulista como o terceiro polo
gerador de lixo no globo. Perde apenas para Nova York e Tóquio.
Mas devemos reter que São Paulo não é a terceira economia metropolitana
do planeta. É a 11a ou 12a. Ou seja, gera-se muito mais lixo do que
seria admissível a partir de um parâmetro eminentemente econômico.
IHU On-Line – Qual a relação entre a questão do lixo e o
consumo (e a consequente geração de lixo) como indicativo de
desenvolvimento?
Maurício Waldman – A cultura organizacional da
modernidade, cuja mola mestra são ritmos cada vez mais velozes impostos à
produção, obrigatoriamente tem na reposição constante dos bens uma meta
estratégica da sua reprodução material. Dito de outro modo: trata-se de
conduzir o consumo para a satisfação de necessidades que não se
justificam em si mesmas, mas prioritariamente constituem pressuposto
para a produção. No seu entrosamento mais literal, validar o dinamismo
do mercado implica promover o descarte contínuo dos bens, ejetados pelo
carrossel do consumo.
Na perspicaz argumentação do filósofo Abraham Moles,
vivemos numa civilização consumidora que produz para consumir e cria
para produzir, um ciclo onde a noção fundamental é a de aceleração.
Consequentemente, quanto mais rápida for a substituição das mercadorias,
tanto mais encorpado será o giro do capital. Quando antes e quanto mais
os produtos se tornarem inúteis, tanto maiores serão os lucros. Ainda
que a contrapartida seja sobre-explorar os recursos naturais e, é claro,
maximizar a geração de lixo. Como seria possível arrematar, este
conceito de economia é caduco, ambientalmente irresponsável e não tem
condição nenhuma de manter continuidade. Não hesitaria em afirmar que
ele se tornou uma ameaça para o futuro da espécie humana. Urge
redirecionar a economia para outras vertentes: qualidade de vida,
preservação ambiental, utilização racional dos recursos naturais,
revisão do estilo de vida e da economia dos materiais.
IHU On-Line – O que deveria fazer parte de um plano de gestão de resíduos municipal ideal?
Maurício Waldman – Essa é uma pergunta muito comum. O
interessante é que as pessoas imaginam que seja possível criar um
“plano padrão” para a gestão dos resíduos. Isto é, um programa capaz de
ser aplicado em qualquer contexto. Para citar um exemplo, chegaram a
entrar em contato comigo solicitando um plano para uma cidade de 200 mil
habitantes. Como é que pode? Claro que o conhecimento do perfil
demográfico importa para a confecção de um plano de gestão de resíduos.
Todavia, esse dado por si só é insuficiente. Por exemplo, as cidades de Marabá (Pará), Presidente Prudente (São Paulo) e São Leopoldo
(Rio Grande do Sul) possuem contingente populacional semelhante, em
torno de 200 mil habitantes. Mas isso não significa que uma estratégia
de gestão bem sucedida em São Leopoldo possa ser repetida em Marabá ou
em Presidente Prudente.
Então, é importante primeiramente obter dados do perfil do lixo de
cada cidade, país ou região, assim como as dinâmicas responsáveis pela
ejeção de descartes e, na sequência, trabalhar com os aspectos sociais,
econômicos e culturais envolvidos naquilo que se joga fora. Não existe
lixo: existem lixos. Expressão plural e não singular.
Outro aspecto essencial é mudar a visão tradicional que observa o
lixo unicamente como um resultado. Na realidade, o lixo reporta a um
processo, a um dinamismo cujo monitoramento não tem como ser bem
sucedido atendo-se a ele enquanto um resultado final. Objetivamente, o
importante é pensar as causas, origem dos problemas – e não o fim da
linha.
IHU On-Line – Quais são os principais fatores que envolvem o gerenciamento do lixo no plano municipal?
Maurício Waldman – Entendo que existem duas diretrizes matriciais: uma de índole filosófica, que seria o caso, por exemplo, dos quatro “RS”
e outra, atinente aos aspectos logísticos de gestão do lixo. De
qualquer modo, assevere-se que nosso temário é o lixo brasileiro, que é
dotado de uma série de especificidades que devem estar colocadas no
centro das atenções. Em nome dessas peculiaridades que o trabalho dos
catadores deve, por exemplo, ser protegido, incentivado e valorizado
pelas administrações municipais. Mas isso é o oposto do que acontece na
maioria dos casos. Estigmatizados socialmente, o trabalho dos catadores –
que corresponde a mais de 98% dos materiais encaminhados às
recicladoras – segue, a despeito do seu enorme valor social e ambiental,
repudiado, quando não hostilizado abertamente, pelas administrações
municipais. É o que pondera nota oficial divulgada pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis
em 2010. O manifesto recorda que apenas 142 municípios em todo o país
(2,5% do total) mantêm relação de parceria com associações e
cooperativas de catadores. Tal situação requer revisão imediata.
IHU On-Line – Como estes fatores então devem ser levados em consideração?
Maurício Waldman – Entendo que o problema do lixo
pode, ao menos, ser mitigado com o concurso de procedimentos
inteligentes e práticas ambientalmente corretas. Um exemplo bem
concreto: dependendo da bibliografia, o volume de detritos orgânicos no
lixo domiciliar brasileiro pende entre 52% a 69,6% do total. Qual seja:
independentemente da fonte, o que ninguém discute é a magnitude da
fração úmida no lixo residencial. Normalmente, o sistema de limpeza
urbana desova toda essa portentosa massa de sobras nos aterros. Mas
existem outras soluções. Deveríamos priorizar a educação ambiental,
trabalhar contra o desperdício.
Afinal, um documento da FAO (órgão da ONU
relacionado com a alimentação e agricultura), datado de 2004, revela que
o Brasil está entre os dez países que mais jogam comida no lixo, com
perda média de 35% da produção agrícola. Segundo levantamentos, cada
família brasileira desperdiça cerca de 20% dos alimentos que adquire no
período de uma semana e a Companhia Nacional de Abastecimento – Conab estima perdas em grãos em torno de 10% da produção.
Outras avaliações indicam que praticamente 64% do que é cultivado no
país acaba lançado na lata de lixo. Isso é um contrassenso manifesto
numa nação rotineiramente assediada por campanhas de combate à fome.
Portanto, devemos atacar a raiz do problema e parar de pensar que gestão
dos resíduos se resume a tirar saquinho da calçada. A gestão dos
resíduos deve se situar antes do saquinho, e não depois dele.
IHU On-Line – Mas ainda assim existirão sobras…
Maurício Waldman – Sem dúvida alguma. Inclusive aproveito o momento para questionar o conceito de Lixo Zero.
Isso é uma mitologia, uma verdadeira peça de ficção. Toda atividade
humana consome água, solicita energia e gera lixo. Essa ponderação vale
inclusive para a atividade recicladora. Mas se eliminar lixo é uma
afirmação insensata, por outro lado é perfeitamente possível pautar a
redução dos rejeitos.
Retomando o caso do lixo culinário, o meio ambiente e as cidades
lucrariam muito mais na hipótese de se universalizar a compostagem
doméstica do que ficar investindo em caros sistemas de logística de
coleta de resíduos, em aterros e incineradores. Com a adoção de
minhocários domésticos, a redução do lixo orgânico pode alcançar a
proporção de 95% do total. Isso significa que os gastos com coleta de
lixo urbano podem retrair em até 50%.
Consequentemente, haveria grande
economia para o erário público, propiciando mais verba para saúde e
educação. Mesmo que apenas uma parcela da população adote o sistema,
ainda assim os ganhos seriam consideráveis.
IHU On-Line – Que tipo de lixo é o grande vilão? O domiciliar é um dos maiores?
Maurício Waldman – O lixo jamais constitui vilão.
Ele é transformado em um estorvo em razão do papel que os resíduos
assumiram na nossa civilização. Como recorda o geógrafo francês Jean
Gottman, vivemos um período que poderia ser definido como a Era do Lixo.
Esta é a primeira vez na história que os resíduos passaram a ocupar um
nexo central nas preocupações humanas. Trata-se de um fato inédito cuja
origem é o ineditismo de como os rejeitos são trabalhados pela
modernidade.
Quanto à questão do lixo domiciliar faz-se importante lembrar – no
que causaria espécie a um difuso senso comum – que os rejeitos
residenciais perfazem não mais que 2,5% do total do lixo mundial. Na
realidade, o que é descartado pelas residências é suplantado de longe,
em ordem de importância, pelos rejeitos da mineração, da indústria e da
agropecuária.
Note-se que esses três segmentos são responsáveis pela geração de
aproximadamente 91% do lixo planetário, cabendo tanto para a pecuária
quanto para a mineração algo mais que a terça parte do total, e para a
agricultura cerca de 20%. Na sequência, temos o lixo industrial, com 4%,
o entulho, com 3%, e os resíduos sólidos urbanos, com 2,5%.
Entretanto, caberia sublinhar que, embora o lixo domiciliar seja 2,5%
nessa conta, processualmente é o mais importante de todos. Isso porque
tudo ou quase tudo que se produz no mundo acaba descartado no saquinho
que colocamos na calçada ou na lixeira do prédio.
O lixo domiciliar é o último elo de uma longa cadeia de geração de
lixos. Segundo a ativista de sustentabilidade norte-americana, Annie Leonard,
professora da Universidade Cornell, atrás de cada saquinho colocado na
calçada existem 60 outros sacos de lixo descartados no processo da
produção. Em resumo, o lixo domiciliar é o último avatar na ciranda da
geração de lixos.
IHU On-Line – Quanto lixo é gerado nos municípios brasileiros e o que é feito com ele?
Maurício Waldman – Os dados compilados mais recentes são de 2008. Constam na Pesquisa Nacional de Saneamento Básico – PNSB,
um trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.
Segundo este levantamento, em 2008 eram coletados 183,5 mil
toneladas/dia de resíduos sólidos urbanos. Importa esclarecer que para o
PNSB a categoria lixo urbano subentende os refugos procedentes do
âmbito domiciliar e do comércio e atividades de serviços.
De qualquer modo – para além dos dados impressionantes dos números do IBGE –,
a situação da gestão do lixo preocupa no aspecto qualitativo. Por
exemplo, na capital paulista cerca de 35% do lixo obtido pela coleta
seletiva da administração municipal – que sendo materiais já segregados
deveriam ser 100% reaproveitados – é encaminhado para aterros devido a
falhas operacionais e logísticas do sistema.
Mesmo Curitiba – cidade icônica em termos de
reciclagem – 60% dos materiais desovados nos aterros seriam itens
passíveis de reciclabilidade. Em termos técnicos, não há nenhuma cidade
de porte no Brasil com reciclagem em termos de excelência. Ademais, no
país 60,5% dos municípios descartam lixo de modo inadequado. Para
complicar, mais de 6,4 milhões de toneladas sequer são coletadas, sendo
despejadas irregularmente ao longo das vias urbanas, em córregos,
praias, etc.
Na área rural, a coleta alcança apenas 33% dos domicílios. Ainda com base no PNSB,
o documento revela que em 80% do território nacional existem lixões e
aterros controlados (na verdade, “lixões melhorados”), sendo que isso
acontece justamente nas áreas de maior interesse ambiental: Amazônia,
Pantanal, áreas de mangue, cerrado, etc.
IHU On-Line – Qual sua opinião sobre os aterros sanitários como destino do lixo? É a melhor alternativa?
Maurício Waldman – É óbvio que, sendo impossível
existir uma sociedade sem resíduos, há um momento no qual o lixo deve
ser encaminhando para algum tipo de disposição final.
É importante frisar que o aterro sanitário ao menos atenua alguns dos
agravantes relacionados com a disposição irregular dos detritos.
Reconhecidamente, o lixo domiciliar origina efluentes líquidos
(chorume) e gasosos (metano), que constituem complicadores ambientais de
monta. O chorume é 200 vezes mais impactante que o esgoto quanto à
demanda bioquímica de oxigênio (DBO). Em suma, atua como poderoso
elemento destrutivo das águas doces. Quanto ao metano, trata-se de item
crucial da agenda das mudanças climáticas.
Ainda que as emissões de metano sejam inferiores às do dióxido de
carbono (tido como carro-chefe do efeito estufa), seu efeito é
consideravelmente maior: cerca de 20 vezes mais. A discussão relacionada
com o metano conquista relevância especial pelo fato deste gás ser
dotado de preocupante implicação quanto ao aquecimento global.
Acredita-se que no Brasil o lixo domiciliar, devido ao elevado teor de
matéria orgânica, represente 12% das emissões brasileiras do gás, sendo
que a disposição final responde por 84% desse valor. Ora, ao menos os
aterros sanitários drenam o metano e coletam o chorume. Outro detalhe
importante é que as áreas eleitas para acolherem aterros sanitários
requisitam estudos geotécnicos e medidas de implantação precisas e
rigorosas.
Em 2008, existiam 1.723 destes equipamentos em operação no Brasil,
recebendo 110 mil toneladas/dia de lixo: 58,3% do total nacional.
Contudo, advirta-se que, apesar do rigor técnico sugerido pelos aterros
sanitários, o modelo incorpora diversos questionamentos, a começar por
obrigar a seleção de vastas áreas de terreno – cada vez mais escassas em
todo o mundo – exclusivamente para confinar rejeitos. Outro dado é que a
pontuação do aterro depende de pessoal técnico qualificado, o que não
necessariamente está à disposição. Por fim, os aterros reclamam verbas
pesadas para enterrar materiais cuja produção requisitou água, energia,
recursos naturais e trabalho humano, um contrassenso a toda prova.
IHU On-Line – E o que dizer dos chamados vazadouros a céu aberto, ou
simplesmente lixões? Quais os danos que eles provocam ao meio ambiente e
à saúde humana?
Maurício Waldman – Sem meias palavras, o lixão é um
verdadeiro caso de polícia. As áreas de lixão no país exibem o que de
pior existe na “não gestão” dos rebotalhos. Entre outros problemas temos
emissões de chorume e de gás metano sem controle, insetos e toda uma
fauna transmissora de doenças, ameaças ao meio ambiente e à população em
geral. Essa é a sintomatologia de um lixão. Há aproximadamente 12 mil
lixões em atividade ou desativados no território nacional.
Nesse sentido, importaria assinalar que a tão propalada Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS
de 2010, embora tenha por meta a extirpação do lixão como “equipamento”
para confinamento dos resíduos, foi antecedida neste mister pela Lei de Crimes Ambientais
de 1998. Para esta legislação, a deposição de resíduos a céu aberto já
era considerada ilegal. Mas pelo jeito, foi uma lei que “não pegou”.
Para complicar, não obstante a apologia que muitos técnicos do
Ministério do Meio Ambiente teceram com abnegação inconsequente ao longo
de 2010 quanto ao PNRS, existe o fato concreto de que
até este momento, apenas 10% dos municípios elaboraram planos de gestão
de resíduos. É um fato que preocupa, e muito, todos os especialistas da
“lixologia”. Em especial, os que querem ver a erradicação final dos
lixões no Brasil.
IHU On-Line – Qual a importância da reciclagem do lixo como alternativa para o problema?
Maurício Waldman – Essa pergunta é instigante, tanto
pelo fato da reciclagem ser uma estratégia matricial na minimização dos
impactos provocados pela verdadeira avalanche de lixo que está
dominando o planeta quanto pelas próprias limitações da atividade
recicladora – no que pode surpreender muitos leitores desta entrevista.
Importa esclarecer os seguintes fatos: primeiro, que nas condições
como a sociedade e a economia globais estão hoje estruturadas a
reciclagem não tem como deter a disseminação do lixo e tampouco impor
recuos na expansão dos rebotalhos; segundo, a reciclagem tem se
articulado com a dinâmica maior do sistema de produção de mercadorias
responsável pela depleção dos recursos naturais e gerador de rejeitos.
Ou seja, foi cooptada pela lógica da produção incessante; terceiro, a
reciclagem não contesta a espiral de consumo e apenas a apresenta sob
nova roupagem, agora adornada com afetações ambientais e beatificada
pelo evangelho do desenvolvimento sustentável. Em síntese, a reciclagem,
conforme já sugeri, é somente o último dos quatro Rs. É antecedida em
ordem de importância por repensar, reduzir e reutilizar.
IHU On-Line – É viável apostar nela, considerando a sociedade
capitalista em que vivemos, onde tudo deve gerar lucro, até o lixo?
Maurício Waldman – Viável ela é e deve ser
incentivada. Outra coisa é transformá-la no ícone da defesa do meio
ambiente, o que simplesmente não é correto. É preciso rubricar que a
ciranda do sistema produtivo, articulada com o que denominei no meu
livro Lixo: cenários e desafios, como “cornucópia dos lixos”, tem objetivamente nivelado a zero os ganhos advindos com a recuperação dos materiais.
Exemplificando, embora no caso do papel a atividade recicladora tenha
imposto certa desaceleração no crescimento da demanda por polpa de
madeira, ela serviu bem mais como complemento do que substituto para a
fibra virgem. Sabidamente, nunca se produziu tanta celulose na história
humana quanto nos dias atuais. O consumo de materiais celulósicos cresce
num nível tão rápido que suplanta a possível poupança de recursos
promovida pela recuperação dos papeis.
Outros itens de resíduos repetem o mesmo tipo de desempenho no
contexto maior da engenharia econômica. Exemplificando, no Japão, entre
1966 e o ano 2000 a reciclagem do plástico PET cresceu 40%. Todavia,
neste mesmo lapso de tempo o consumo duplicou, cancelando o quinhão de
benefícios providos pela recuperação desta sucata. O resgate de metal
das lixeiras também não consegue acompanhar o ritmo alucinante de
consumo de cargas sequestradas do reino mineral.
A produção de aço secundário (metal refundido proveniente da reciclagem) atinge 35% da produção mundial total.
Mas os números globais não param de crescer. Assim, se em 1950 as
siderúrgicas produziam 189 milhões de toneladas de aço, em 2008 a
produção alcançou 1,3 bilhões de toneladas, quase sete vezes mais. Em
tempo, precisamos acima de tudo repensar o conjunto da sociedade
contemporânea.
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum comentário?
Maurício Waldman – Sim. Gostaria de destacar que a
discussão do lixo põe em xeque a civilização do lixo, impondo uma
revolução completa da forma como são produzidas as coisas, como são
consumidas e como são descartadas. Cada um de nós deve fazer sua parte
sabendo que toda contribuição é necessária e indispensável. É uma tarefa
difícil, mas não impossível. Atentemos para as palavras do
ambientalista Paul Hawken: “Não se deixem dissuadir por pessoas que não
sabem o que não é possível. Façam o que precisa ser feito, e verifiquem
se era impossível exclusivamente depois que tiverem terminado”. É isso:
sigamos em frente!
(Ecodebate, 05/12/2012).







