“Temos que minimizar a geração, começando pela redução na fonte, ou
seja, não gerando o lixo e, se este for inevitável, gerar menos,
evitando o desperdício”, defende Eglé Novaes Teixeira
Por: Graziela Wolfart
Na visão da professora da Unicamp Eglé Novaes Teixeira,
nossos hábitos nos conduzirão a um “mundo de lixo”. Na entrevista que
concedeu por e-mail à IHU On-Line, ela acredita que todos devem mudar
seus hábitos, passando a gerar menos resíduo, pensando e consumindo de
forma consciente. “Antes de fazermos uma compra, devemos nos perguntar:
preciso realmente deste bem ou coisa? O que tenho não dá para ser ainda
usado? Preciso comprar tanto? Não posso diminuir a quantidade que estou
comprando? Vou poder aproveitar tudo que estou comprando?”, questiona. E
continua: “se realmente tivermos que fazer a compra, devemos optar por
produtos que sejam reutilizáveis ou recicláveis. Agindo sempre dessa
forma, evitaremos o desperdício, diminuiremos o lixo que geramos e ainda
economizaremos nosso dinheiro”.
Eglé Novaes Teixeira possui graduação em Engenharia
Civil pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, mestrado em
Engenharia Agrícola pela mesma instituição, doutorado em Engenharia
Civil pela Universidade de São Paulo e é livre docente na área de
Resíduos sólidos também pela Unicamp, onde é professora.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Em que sentido Fernando de Noronha pode ser
apontado como o “paraíso do lixo”? Quais os fatores que favorecem o
aumento do lixo no local?
Eglé Novaes Teixeira –Paraiso do lixo é redundante e exagero. O que
acontece é que Fernando de Noronha é uma ilha e depende de tudo do
continente, inclusive para dispor seu resíduo. Quando a coleta e
transporte deixam a desejar, a ilha transforma-se no “paraíso do lixo”,
ou seja, fica lixo disposto inadequadamente. Quanto ao aumento de lixo
no local, afora o turismo, é o próprio estilo de vida atual, com muito
descartável, muita embalagem, que a natureza não consegue eliminar (não
podemos esquecer a grande quantidade de lixo gerada por pessoa). Para
diminuir este efeito, só com a conscientização de todos para, além de
dispor o lixo no local adequado, pensar antes de comprar se há realmente
necessidade dessa compra, pois tudo o que se compra, de uma forma ou de
outra, gera lixo. Temos que minimizar a geração, começando pela redução
na fonte, ou seja, não gerando o lixo e, se este for inevitável, gerar
menos, evitando o desperdício.
IHU On-Line – Qual a importância das usinas de compostagem em relação ao papel de transformar o resíduo orgânico em adubo?
Eglé Novaes Teixeira –Para transformar lixo em adubo, em escala
maior, as usinas de compostagem são a única opção. A população pode
fazer o composto (adubo feito a partir de resíduo orgânico, via
compostagem) em casa, via compostagem caseira. Mas em termos de
município, só através de usina de compostagem (também chamadas de
unidades de compostagem). A grande vantagem da compostagem é que reduz a
quantidade de resíduo que tem que ser disposta (é a parcela
transformada em adubo que retorna ao solo, deixando de ir ao aterro).
Mas para que seja efetivamente útil, deve-se ter mercado para o
composto, ou seja, área agrícola próxima, com capacidade para absorver o
composto. Não se pode esquecer que após o período inicial, da formação
do primeiro composto, tem-se que dispor o composto diariamente, em
quantidade igual a aproximadamente 50 ou 60% da matéria orgânica que
está entrando na usina. Tem que haver plantações capazes de receber o
adubo diariamente (claro, tem que ser mais de um tipo de plantação, já
que cada uma não consegue ser adubada todos os 365 dias do ano).
IHU On-Line – Quais os maiores problemas que envolvem os grandes lixões a céu aberto? Que alternativas se colocam a eles?
Eglé Novaes Teixeira – O grande problema dos lixões a céu aberto é
que eles geram todos os tipos de contaminação: contaminam o ar (gases
voláteis e quando da queima indiscriminada), contaminam o solo com o
próprio resíduo e com o chorume (líquido proveniente da decomposição da
matéria orgânica mais a água proveniente da umidade do lixo e da chuva
principalmente), contaminam as águas subterrânea e superficial (com o
chorume se infiltrando e/ou escoando superficialmente). São focos de
doenças, pois oferecem abrigo e alimento a vetores (ratos, baratas,
escorpiões, além de animais de maior porte e o próprio homem) que são
veículos que proliferam doenças. Ainda são esteticamente fonte de
poluição visual. A alternativa ao lixão é a disposição e o tratamento
ambientalmente adequados do resíduo, onde se podem citar o aterro
sanitário, a compostagem, a reciclagem e mesmo um sistema de incineração
(envolve, além do forno, processos de tratamento dos gases, da água
gerada neste tratamento dos gases, a disposição adequada das cinzas e
dos resíduos provenientes do tratamento dos gases e da água).
Atualmente, não se deve mais pensar em apenas em um tipo de tratamento,
mas em um sistema integrado de tratamento do lixo, onde cada tipo de
resíduo recebe o tratamento mais adequado.
IHU On-Line – Qual seria o melhor destino, em sua opinião, para os resíduos sólidos do lixo doméstico?
Eglé Novaes Teixeira –O sistema integrado de tratamento de resíduos
citado na questão anterior. Assim, o resíduo reciclável deve ser
encaminhado à reciclagem; a matéria orgânica, se possível e na
quantidade em que é possível utilizar o composto, deve ser encaminhada à
compostagem. A matéria orgânica não possível de ser compostada,
juntamente com varrição, resíduo da limpeza de boca de lobos e galerias
de águas pluviais, deve ser encaminhada a um aterro sanitário. O resíduo
de construção civil deve ser segregado e aquela parcela passível de ser
reciclada na construção civil deve ser encaminhada para reciclagem. A
parcela de resíduo perigoso (tintas solventes, etc.) deve ser
encaminhada para aterros de resíduos perigosos ou incineração. A parcela
de resíduo comum (plástico, papel, papelão, matéria orgânica) deve ser
disposta como os resíduos que o compõe (recicláveis e orgânicos) e a
parcela que não é perigosa e nem reciclável deve ser encaminhada a
aterros de resíduos da construção civil. O resíduo de serviços de saúde
deve ser separado e o infeccioso deve ser desinfetado (autoclavagem ou
micro-ondas, principalmente) ou incinerado; o comum, assim disposto; o
resíduo químico deve ser encaminhado para incineração e/ou recuperação.
Enfim, cada tipo de resíduo deve ter o tratamento mais adequado às suas
características e de forma a não poluir e nem contaminar o ambiente.
IHU On-Line – Como a senhora vê a proposta da criação de usinas de incineração de lixo para a geração de energia elétrica?
Eglé Novaes Teixeira –A incineração só é aceitável hoje se for feita
por meio de um sistema de incineração, ou seja, o resíduo deve ser bem
conhecido para poder entrar no sistema e, dessa forma, o sistema deve
ter processos de tratamento para eliminar ou reduzir a índices
aceitáveis pela legislação para lançamento todos os tipos de gases a
serem gerados com a queima controlada desse resíduo. Se no tratamento
dos gases for utilizada água (como nos lavadores de gases, por exemplo),
a água resultante do tratamento, com as impurezas resultantes da
limpeza dos gases, deve ser também tratada. Os sólidos gerados em todo o
sistema de incineração (cinzas e escórias geradas no forno,
particulados e precipitados gerados no tratamento dos gases, e lodos
gerados no tratamento de eventual água) devem ser dispostos
adequadamente em função de suas características (se perigosos, em
aterros de resíduos perigosos e se inertes, em aterros de inertes).
Dessa forma, o sistema de incineração é aceitável, pois além de não
poluir ainda permite a recuperação energética, usualmente empregada para
gerar energia elétrica. Nos países frios, essa prática também é usada
para calefação de ambientes. O único problema desse tipo de tratamento é
obviamente o seu custo. Por isso é que o sistema de incineração só é
adotado quando as demais opções são inviabilizadas (por exemplo, não
haver área disponível e adequada para aterro sanitário). Usar a
incineração apenas para gerar energia não tem sentido. Deve ser usada
para tratar resíduos, aproveitando a energia.
IHU On-Line – Que análise a senhora faz da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS?
Eglé Novaes Teixeira –A PNRS, tão esperada e desejada, finalmente
chegou. Acredito que vamos ter uma melhora significativa na disposição
de resíduo gerado e teremos, acredito, implantada a logística reversa
para mais tipos de resíduos além dos obrigatórios pela PNRS (esta
permite e abre espaço para que outros setores adotem a logística
reversa, desde que de comum acordo), pois esta é, no final das contas,
interessante ao setor produtivo. O que gostaria que tivesse tido mais
ênfase é a redução na fonte de resíduo (é citada, mas gostaria que fosse
mais incisiva).
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?
Eglé Novaes Teixeira –Sim. Gostaria de que todos os leitores
sensibilizassem e se conscientizassem que nossos hábitos, como estão
hoje, nos conduzirão a um mundo de lixo. Temos que mudar nossos hábitos,
passando a gerar menos resíduo, pensando e consumindo de forma
consciente. Antes de fazermos uma compra, devemos nos perguntar: preciso
realmente deste bem ou coisa? O que tenho não dá para ser ainda usado?
Preciso comprar tanto? Não posso diminuir a quantidade que estou
comprando? Vou poder aproveitar tudo que estou comprando? Se realmente
tivermos que fazer a compra, devemos optar por produtos que sejam
reutilizáveis ou recicláveis. Agindo sempre desta forma, evitaremos o
desperdício, diminuiremos o lixo que geramos e ainda economizaremos
nosso dinheiro.
(Ecodebate, 07/12/2012) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.







