por Dan Moche Schneider — última modificação 12/04/2013
13:03
A escolha de uma tecnologia não é neutra. Prejudica
a uns e beneficia a outros.
A administração pública de São Bernardo
de campo, município da região metropolitana de São Paulo, pretende investir
centenas de milhões de Reais num modelo tecnológico e de gestão de resíduos
sólidos baseado numa importante omissão, que pode ser resumida numa única frase
pinçada do seu Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos: “O
ideal é que o município implante um programa eficiente que recupere a médio
prazo, 20% do total dos resíduos coletados”.
Por força da melhor gestão e do artigo
9º da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prioriza a reciclagem sobre
qualquer outra forma de tratamento, o município deve reciclar não 20%, mas
87% de todos os resíduos (100% dos resíduos secos e úmidos). Prioridade é,
segundo Houaiss, condição do que é o primeiro em tempo, ordem, preferência,
primazia, urgência, premência.
Isso não é um mero detalhe. O
"esquecimento" do artigo 9º pelo plano de resíduos associado à
epifania do “o ideal é que o município implante um programa eficiente
que recupere a médio prazo, 20% do total dos resíduos coletados” redirecionou
a prioridade do modelo tecnológico e de gestão para a incineração e atropelou,
de uma tacada só, a Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Plano Brasil sem
Miséria.
A escolha de uma tecnologia não é
neutra. Prejudica a uns e beneficia a outros.
O belo e atrevido Plano Brasil sem
Miséria objetiva elevar a renda e as condições de bem-estar de, entre outros,
catadores de materiais recicláveis e famílias extremamente pobres pelo apoio à
sua organização produtiva.
Organização produtiva que precisa de
resíduos secos para serem coletados, triados e vendidos.
Mas pretendem que 76% dos resíduos
secos recicláveis sejam destruídos. Durante décadas. Porque “o
ideal é que o município implante um programa eficiente que recupere a médio
prazo, 20% do total dos resíduos coletados”. Por quê?
Talvez porque falte na região catadores
de materiais recicláveis e famílias extremamente pobres a serem integradas.
Ou porque não se confie na capacidade
dos catadores e outras pessoas extremamente pobres de coletar e triar 360
toneladas/dia de resíduos secos. (Que saudades de quando se ouvia nas
ruas dessa cidade: “que nunca mais se duvide da capacidade de luta da classe
trabalhadora“.)
Ou talvez porque se deva também elevar
a renda e as condições de bem-estar dos fabricantes, comerciantes e operadores
de incineradores.
Fonte: MNCR







