“O Brasil tem um potencial de energia solar e eólica ainda inexplorado”,
assinala o engenheiro.
Confira a entrevista.
A notícia de que 15%
dos domicílios brasileiros dispõem de energia solar demonstra, na avaliação
de Eloy Casagrande Jr., que “o governo começa a reconhecer as energias
renováveis como a solar, a eólica e a biomassa. Representa que, de algum modo, o
país está saindo desse paradigma da energia de hidrelétrica e termoelétrica”.
Segundo ele, o atual momento de transição de energia fóssil para energia
renovável exige maiores investimentos em tecnologia, informação, educação,
inovação e incentivo no sentido de “criar condições para que essa energia possa
ser consolidada”. Tal mudança, assegura, depende da “mão forte” do governo.
Em entrevista concedida por telefone para a IHU On-Line, o pesquisador
assinala que os investimentos atuais apontam para a energia descentralizada no
futuro. “A última resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel
sinaliza para que os consumidores, a partir de 2013, possam instalar uma
regulamentação para energia fotovoltaica, energia eólica e energia de biomassa,
ou seja, para que possam instalar minigeradores, microgeradores nas suas casas,
nos escritórios, no hospital, em escolas e, a partir disso, estar conectados à
rede”.
Eloy Casagrande Jr. é doutor em Engenharia
de Recursos Minerais e Meio Ambiente, pela University of Nottingham, e
pós-doutor em Inovação Tecnológica e Sustentabilidade, pelo Instituto Superior
Técnico – IST, Lisboa. Atualmente é professor na Universidade Tecnológica
Federal do Paraná.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O Ministério de Minas e Energia divulgou que 15% dos
domicílios brasileiros já dispõem de energia solar. O que esse percentual
significa em termos de investimento em energia renovável?
Eloy Casagrande Jr. – Significa muito à medida que o governo começa a
reconhecer as energias renováveis como a solar, a eólica e a biomassa.
Representa que, de algum modo, o país está saindo desse paradigma da energia de
hidrelétrica e termoelétrica. O investimento nas energias renováveis contribui
para a redução de emissões, para uma maior eficiência energética, gerando menos
gastos à sociedade. Então, o governo poderia aumentar, como fizeram em outros
países, a linha de apoio através de isenções fiscais, através de linhas de financiamento
especiais, porque, com esse tipo de apoio, se consegue que novas tecnologias
entrem no mercado com mais força, possibilitando o acesso aos consumidores.
IHU On-Line – Por que o investimento em energia solar ainda é baixo, visto
que o país possui os recursos necessários? Como entender a falta de incentivo
para a produção de energia alternativa no Brasil, como a energia solar, por
exemplo?
Eloy Casagrande Jr. – O Brasil tem um potencial de energia solar e eólica
ainda inexplorado. De fato, há uma baixa geração comparada ao potencial
brasileiro. Nesse sentido, ainda há um caminho longo para percorrer em termos de
desenvolvimento, tecnologia, know-how, criação de mais empregos
etc. Quando um país começa a sair do paradigma de uma energia poluente, como a
energia baseada no combustível fóssil, e passa a investir em uma energia como a
renovável, tem que investir em informação, educação, inovação, e precisa criar
condições para que essa energia possa ser consolidada no mercado. Vejo que em
todos os países isso acontece através de ações do governo. Não se pode deixar o
mercado atuar sem nenhum tipo de apoio. Há de ter aí a “mão forte” do governo
para isso acontecer.
IHU On-Line – A proposta para a ampliação da energia solar consiste em
investir em um modelo de energia descentralizado ou num modelo centralizado?
Eloy Casagrande Jr. – Os investimentos apontam para a energia
descentralizada. A última resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica –
Aneel sinaliza para que os consumidores, a partir de 2013, possam instalar uma
regulamentação para energia fotovoltaica, energia eólica e energia de biomassa,
ou seja, para que possam instalar minigeradores, microgeradores nas suas casas,
nos escritórios, no hospital, numa escola, e a partir disso estar conectados à
rede. Vamos nos tornar todos distribuidores de energia. Esse é um modelo que já
existe fora do Brasil há muitos anos. Ao investir nesse modelo, se tem a
possibilidade de reduzir os custos da instalação, por exemplo, de painéis
fotovoltaicos, que ainda necessitam das baterias. Além disso, ao produzir essa
energia que não será consumida, será possível trocá-la por crédito de energia da
rede, para utilizar a energia em momentos em que não há sol, como à noite. Nesse
sentido, percebe-se que há uma tendência clara para descentralizar a energia.
Evidentemente, não se trata de grandes geradores, mas já é um avanço.
IHU On-Line – Quais os desafios em relação à energia solar no país? É
possível garantir a eficiência energética investindo somente em energias
renováveis?
Eloy Casagrande Jr. – Temos que olhar a energia do ponto de vista sistêmico.
Qualquer geração de energia do futuro vai ter que ser composta de diversas
fontes. Não se pode, por exemplo, depender somente da energia oriunda de
hidrelétricas, pois basta não chover por um período e ficaremos sem energia.
Então, a matriz energética tem de oferecer um conjunto de ofertas de energia,
que possam suprir as deficiências de cada uma.
Quando se discute a matriz energética, não se trata de dizer que a melhor
energia é a hidrelétrica, a solar ou a eólica. O conjunto delas, associado a um
bom programa de eficiência energética, o qual o Brasil precisa assumir, traria
resultados. Ainda há muito o que fazer em relação às perdas de distribuição, em
relação à melhoria dos equipamentos e dos produtos que utilizam energia
elétrica, como os eletrodomésticos. As próprias construções também podem ser um
alvo de estudo em posição de maior eficiência energética. Na Universidade
Federal do Paraná, por exemplo, realizamos o projeto do “escritório verde”, que
aponta um conjunto de soluções para maior eficiência energética e uso racional
da energia. Entre as propostas, estuda-se o isolamento térmico de futuras casas,
com vidros e paredes duplas, com iluminação natural, com energia solar e com
lâmpadas leves. Então, é esse conjunto de tecnologias e equipamentos que vai
determinar o quanto de energia será possível dispor no futuro, trazendo
economia.
IHU On-Line – A energia solar seria positiva no sentido de não permitir perda
de energia na distribuição?
Eloy Casagrande Jr. – Perde-se muita energia na distribuição de energia
elétrica para as fontes consumidoras. A energia solar descentralizada é direta,
pois se conectam painéis que estão numa determinada residência à rede, e se
estabelece uma rede de energia na própria residência. Então, de fato, não se tem
perda de energia nesse sentido.
No caso da distribuição das energias hidrelétrica, termoelétrica e nuclear,
há muitas perdas de energia. Isso tem de ser corrigido, tem que haver maiores
investimentos nessas áreas.
IHU On-Line – Como o senhor avalia esse investimento maciço do governo na
construção de novas hidrelétricas para os próximos anos? Considerando a
necessidade de investir em energias renováveis, a política do governo está no
caminho certo?
Eloy Casagrande Jr. – A construção de novas hidrelétricas é discutível,
porque ainda se investe bastante neste modelo sem pensar nas outras fontes.
Então, o Brasil ainda depende muito desse tipo de energia e, como disse antes,
sem corrigir os erros que existem no próprio modelo de matriz energética
brasileira. Corrigindo esses erros e investindo em energias renováveis,
poderíamos reduzir os custos sociais, ambientais e econômicos que implicam na
construção de novas hidrelétrica. Hoje, a construção de hidrelétricas é causa de
um grande debate entre os ambientalistas, por causa das áreas indígenas que
serão afetadas, das áreas agrícolas que serão alagadas, das populações que serão
deslocadas. Tudo isso poderia ter sido evitado caso houvesse um planejamento. É
um problema o fato desses projetos saírem direto de Brasília, sem passar por uma
consulta mais ampla com a sociedade.
IHU On-Line – É possível vislumbrar a geração de energia descentralizada e
autossuficiente no futuro?
Eloy Casagrande Jr. – Não sei se vamos ver um modelo energético
autossuficiente no futuro, mas podemos encaminhar para não sermos tão
dependentes de um modelo centralizado. Claro que isso mexe com grandes negócios,
mexe com grandes lobbys, que estão envolvidos com a energia elétrica, desde que
ela se tornou uma commodity que capta, concentra e vende a energia. Essas
empresas de energia elétrica têm ações na bolsa de valores. Energia virou um
produto que precisa render. Essa visão também já nos traz uma visão
mercantilista da energia.
No futuro até podemos discutir essa visão, mas hoje é o modelo que temos:
existem grandes interesses econômicos ao redor de tudo isso, e se formos fazer
uma retrospectiva histórica da construção das hidrelétricas no Brasil, veremos
que elas são as mesmas construtoras que constroem as hidrelétricas de hoje.
IHU On-Line – Quais as novidades e desafios atuais envolvendo as pesquisas
com energia solar fotovoltaica, célula solar fotovoltaica, geração
descentralizada de energia e painéis fotovoltaicos?
Eloy Casagrande Jr. – Tem-se buscado melhorar muito a eficiência das células
fotovoltaicas, que são feitas à base do silício, investigando-se novos
materiais. As células fotovoltaicas têm uma baixa eficiência, por isso é preciso
uma área grande de painéis, telhados para captar a luz solar. Tem se investido
muito em pesquisas, e espero que, num futuro próximo, ainda possamos conhecer
células fotovoltaicas mais eficientes. Tem-se investido também na questão dos
modelos de geradores eólicos, e já se têm geradores de grande potência e
geradores de menor potência em nível residencial. Com a resolução da Aneel, o
uso dessas tecnologias tendem a avançar.
Também estão surgindo pesquisas de telhas solares que possibilitarão
substituir painéis solares. As próprias telhas das casas poderão conter células
fotovoltaicas. Também estão surgindo painéis de fachada, que complementam a
estética de um prédio e que fazem a captação de células fotovoltaicas. Há muita
coisa nova. A tendência é, entre cinco ou dez anos, ter um mercado muito mais
atraente para o consumidor.
(Ecodebate, 17/07/2012)
publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do
EcoDebate na socialização da informação.







