Um estudo conduzido na Unicamp apontou a viabilidade de reciclar o
resíduo do gesso proveniente da construção civil. A
pesquisa, desenvolvida pela engenheira civil Sayonara Maria de Moraes
Pinheiro, atestou a possibilidade de recuperar o material, mantendo as
mesmas propriedades físicas e mecânicas do gesso comercial. O
crescimento da construção civil no país na última década tem acentuado o
descarte inadequado do resíduo no ambiente, que pode contaminar o solo e
o lençol freático.
“Com a investigação mostramos que é viável recuperar um resíduo que
não era considerado possível de ser reciclado. Tanto que não existem
usinas de reciclo para este material no país. Estima-se que o resíduo do
gesso represente em torno de 4% do volume do descarte da construção
civil, que no Estado de São Paulo corresponde a mais de 50% de todo o
resíduo sólido urbano gerado”, evidencia a engenheira civil.
A sua investigação integrou tese doutora do defendida em 2011 junto
ao programa de pós-graduação da Faculdade de Engenharia Civil,
Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp. Pelos critérios de
originalidade, inovação e qualidade, a pesquisa foi agraciada com o
Prêmio Capes de Tese 2012, concedido pela Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior. Sayonara Pinheiro foi orientada pela
docente Gladis Camarini, do Departamento de Arquitetura e Construção da
FEC.
“O prêmio Capes é a consagração da pesquisa em nível nacional. Eu
estou muito feliz! Gostaria de ressaltar a colaboração dos alunos dos
PIC Jr. [Programa de Iniciação Científica Júnior] e Pibic [Programa
Institucional de Bolsas de Iniciação Científica], além do apoio da minha
orientadora. Sem eles não seria possível fazermos ensaios no volume que
foi feito. Reciclamos aproximadamente 400 quilos de gesso, algo que é
significativo para uma pesquisa de laboratório”, reconhece a premiada.
POLO DE ARARIPE
O gesso é amplamente utilizado na construção civil. O seu uso mais
comum está relacionado ao revestimento de tetos e paredes; confecção de
componentes pré-moldados como forros e divisórias; e como elemento
decorativo, devido as suas propriedades de lisura, endurecimento
rápido e relativa leveza.
A matéria-prima é o minério de gipsita, cujas maiores jazidas estão
localizadas no polo gesseiro de Araripe, no sertão de Pernambuco. O polo
é responsável por 95% da produção nacional. Todo o processo produtivo
da região foi acompanhado de perto pela estudiosa da Unicamp, atualmente
professora da Universidade Federal do Vale de São Francisco (Univasf),
situada próxima à região.
Ela explica que o segmento gesseiro nacional encontra-se em expansão.
A taxa de crescimento anual é da ordem de 8%, com expectativa de
crescimento ainda maior, segundo dados do Sindicato da Indústria do
Gesso de Pernambuco. O incremento se deve, conforme a engenheira,
principalmente, à disseminação de sistemas construtivos alternativos, ao
baixo custo do gesso e ao alto teor de pureza das jazidas de gipsita
nacional.
“A
extração da gipsita representa 1,9 milhão de toneladas por ano no
Brasil. O polo Gesseiro do Araripe é responsável pela maior parte desta
produção, tendo como principais consumidores os Estados da
região Sudeste. O polo é constituído por 37 minas de exploração, cerca
de 100 calcinadoras e, aproximadamente, 300 pequenas unidades produtoras
de componentes, a maioria com processos artesanais”, detalha Sayonara
Pinheiro. O volume de resíduos gerado por essas unidades produtoras
representa, de acordo ela, massa significativa para proporcionar
reciclagem industrialmente.
IMPACTO
A deposição inadequada do resíduo de gesso pode contaminar o solo e o
lençol freático, alerta a estudiosa da Unicamp. Isso acontece devido às
características físicas e químicas do material, que em contato com o
ambiente pode se tornar tóxico. “O resíduo do gesso é constituído de
sulfato de cálcio di-hidratado. A facilidade de solubilização promove a
sulfurização do solo e a contaminação do lençol freático”,
pontua Sayonara Pinheiro.
Do mesmo modo, a deposição do resíduo em aterros sanitários comuns
não é recomendada. Neste caso, além de tóxico, a dissolução dos
componentes do gesso pode torná-lo inflamável, explica a pesquisadora.
“O ambiente úmido, associado às condições aeróbicas e à presença de
bactérias redutoras de sulfato, permite a dissociação dos componentes do
resíduo em dióxido de carbono, água e gás sulfídrico, que possui odor
característico de ovo podre. A incineração do gesso também pode produzir
o dióxido de enxofre, um gás tóxico. As possibilidades de minimizar o
impacto ambiental, portanto, são a redução da geração do resíduo, a
reutilização e a reciclagem”, aconselha.
LEGISLAÇÃO
No mesmo ano da defesa do estudo de Sayonara Pinheiro, o Conselho
Nacional de Meio Ambiente (Conama) publicou resolução nº 431
estabelecendo uma nova classificação para o gesso. A resolução altera a
classificação do material. Antes, ele era agrupado na categoria de
“resíduos para os quais não foram desenvolvidas tecnologias ou
aplicações economicamente viáveis que permitam a sua reciclagem ou
recuperação”. Agora, a deliberação inclui o gesso na categoria de
“resíduos recicláveis”, tais como o plástico, papel, papelão, metais,
vidros e madeiras.
“Mesmo que haja segregação deste resíduo na obra, encontramos um
problema: a ausência de local para descartá-lo e a inexistência de
usinas de reciclo. E porque não existem as usinas de reciclagem? Porque
a Resolução do Conama que recomenda a reciclagem do resíduo é recente, e
as pesquisas relacionadas ao processo de reciclagem e ao conhecimento
das características do gesso reciclado são incipientes. O objetivo do
nosso estudo foi justamente avaliar essas propriedades no material
reciclado, desenvolvido em modelo experimental”, revela a pesquisadora.
RECICLAGEM
O modelo experimental para a reciclagem do resíduo constituiu, de
acordo com ela, nas fases de moagem e calcina ção. Após estas etapas
foram avaliadas as propriedades físicas e mecânicas do material
reciclado.
“Os resíduos foram submetidos a ciclos de reciclagem
consecutivos. Com estes ciclos, nós queríamos verificar se era possível
reciclar o gesso, que já havia passado por processo de reciclo. Chegamos
até o 5º ciclo de reciclagem e o gesso apresentou
características químicas e microestruturais similares ao longo de todo o
processo. Podemos inferir, portanto, que ele pode ser
reciclado indefinidamente”, conclui.
Os ciclos de reciclagem provam, segundo a engenheira, que o gesso da
construção civil pode ser totalmente sustentável. “Pode-se utilizar o
resíduo do gesso em diversos ciclos de reciclagem, que é uma das
diretrizes da sustentabilidade no setor. Além disso, evita a extração da
matéria-prima de fabricação do gesso, que é a gipsita”, complementa
Sayonara Pinheiro.
Texto: SILVIO ANUNCIAÇÃO
Fotos: Divulgação
Edição de Imagens: Everaldo Luís Silva
EcoDebate, 08/01/2013







