sexta-feira, 3 de maio de 2013

Criarão aterros. Enterrarão rendas


Lei prevê fim dos lixões em 2014. Catadores de materiais recicláveis temem ficar sem trabalho.

DIÁRIO DA MANHÃ
JESSIKA TELES

Na busca depreservar o meio ambiente, a partir de agosto de 2014, os lixões não deverão mais existir em todo o País. É o que diz a Lei 12.305/10, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Segundo as disposições, os municípios deverão depositar o lixo em aterros sanitários controlados, o que poderá representar o fim do trabalho de catadores. A renda mensal de muitas famílias depende de resíduos recicláveis. Quem tem a vida dependente do lixo e não tem capacitação profissional, teme ficar sem oportunidade de emprego.
 O lixo é um das principais causas dos problemas ambientais. Muitas pessoas ainda jogam lixo nas ruas, rios, ou simplesmente não separam os materiais como devem. Para a assistente social, Maria Conceição Padial, ainda falta conscientização. “A sociedade demonstra não ter consciência sobre o descarte dos resíduos sólidos que ela mesma produz.”, diz. E declara que o sistema é injusto. “Aqueles que não enxergam o resíduo que produzem, não enxergam os trabalhadores que contribuem com a sua reciclagem”, ressalta.
 Outro problema é o destino do lixo. No Brasil, o lixão continua sendo o método mais utilizado para depósito de resíduos sólidos. Só em Goiás, 236 municípios não possuem aterros sanitários. O engenheiro ambiental, Antonio Paqualetto, diz que isso acontece devido a vários fatores. “Desconhecimento dos males que causam a saúde e ao meio ambiente, ausência de políticas públicas, má gestão dos recursos públicos para a construção de aterros sanitários e carência de profissionais nos quadros municipais para elaboração de projetos”, afirma.
Lei 
A Lei 12.305/10 determina que os municípios terão até 2014 para se adequarem a nova legislação.O engenheiro ambiental explica que todos deverão implantar a coleta seletiva, direcionando o material para as cooperativas de reciclagem. O que não der para ser reciclado será destinado ao aterro sanitário, local adequado para a destinação final. Para Antonio, a lei trará outras vantagens. “Os municípios poderão se agrupar para construir um único aterro sanitário, irá estimular a coleta seletiva e reciclagem, aumentará a organização das cooperativas de reciclagem e promoverá uma mudança de comportamento da sociedade na separação de resíduos sólidos”, declara.
No Estado, segundo a assessoria da Secretaria de Cidades, a lei será colocada em prática, através do incentivo a formação de consórcios públicos, com aterros sanitários microrregionais e implantação da coleta seletiva nos municípios. O que trará benefícios. “A partir do momento que Goiás deixar de dispor seus resíduos de forma inadequada em lixões, existirão cerca de 30 a 40 aterros sanitários, reduzindo o impacto ambiental”, afirmou a assessoria.
Realidade
Há muito lixo. O cheiro não é agradável. Em meio a pilhas de entulhos, há homens e mulheres. A cena é de tristeza. Para eles, é apenas mais um dia de trabalho. Em busca de materiais recicláveis, eles viram e remexem o que veem pela frente. A realidade é dura. E também sentem vergonha. Não querem falar sobre o que fazem. Aparecer no jornal? “Não, moça. Já fiz coisa errada”, diz um deles. As casas não mudaram, continuam sendo de papelão e lona. Há moscas, mosquitos, por todo lado. E muito mato. No meio dele, o capim amassado representa a pisada de pessoas sofridas que foram criadas ali. A humildade está no modo que falam. Na forma que se vestem. Crianças brincam em cima do capô de um carro velho. Andam peladas. Não há escola. O que existe de mais próximo é a prisão. O nome do bairro é bonito. Quando o sol aparece no vale, está na hora de sorrir.
Essa não é apenas a realidade, dos moradores do Vale do Sol, em Aparecida de Goiânia, mas de todo o Brasil. Segundo a assistente social, é o que acontece também com outros tipos de profissões. “Não é uma questão de escolha. Essas pessoas não tiveram e continuam sem ter acesso aos bens e serviços socialmente produzidos. Saúde, educação, moradia, esporte, cultura e lazer, são fundamentais”, afirma.
 Como o recurso era muito pouco, a família do César- será chamado assim nessa reportagem – veio do Pernambuco para morar no Vale do Sol. Quando chegaram, apenas 20 famílias habitavam ali. Vivendo no meio do entulho, há 17 anos, César viu o lixão ser transformado em aterro sanitário. “No início barravam a gente, mas mesmo assim, trabalhávamos. Quando nos pegavam levavam tudo que tínhamos juntado”, diz. O seu trabalho consiste em recolher garrafa pet, produtos de plástico e alumínio. “Não temos hora para trabalhar. Cada um trabalha por si”, informa.
Ganhando em média R$ 500 por mês, César diz que não sobra. “Tenho contas básicas, não comprometo o dinheiro que não recebo. Não pode faltar para comprar o meu cigarro né? Mas, meu dinheiro nunca sobra, diz. Com o ensino fundamental incompleto, César trabalhou a vida inteira, recolhendo material reciclável. Quando questionado sobre o fim da lei, César não esboça reação, mas declara: “Eles têm que ver que o nosso trabalho é esse e que devem fazer algo por nós”, desabafa.
Trabalho 
Everaldo, de 23 anos, também recolhe material reciclável. Parou de estudar para se casar. Cresceu no Vale do Sol, mas atualmente mora em um retiro. Segundo ele, mensalmente, consegue receber mil reais. “Graças a deus, dá para sobreviver”, diz. Everaldo afirma que gosta do trabalho.  “Trabalhamos até a hora que queremos”. Sua rotina consiste em encher o fardo e revender para aos compradores. “Não há rixa entre nós, todo mundo se respeita”, ressalta. Se o lixão realmente acabar, ele diz que não é problema. “Já tive outro emprego, para mim não seria um problema”, conclui.
 O prejuízo poderá atingir também as cooperativas.  Para Andreia Xavier, dona da Zecpel Reciclagem, se isso realmente acontecer irá diminuir o giro “A maior entrada de produtos recicláveis é daqui”, diz. Porém não seria o fim. “Recebemos material de outras empresas e de residências. Os moradores ligam e vamos buscar o material”, ressalta. Depois de separado, o material é revendido para Anápolis, Nerópolis e dentro da capital goiana para ser moído e transformado em grão.
 Na concepção de Antonio, os catadores devem ser chamados de agentes ambientais. “Eles desempenham uma importante papel na sociedade”, diz. Porém, o engenheiro ambiental diz que é necessário o fim do lixão, já que os agentes estavam expostos a problemas de insalubridade e riscos a saúde. “ Estes catadores, devem ser apoiados pelo poder público e estarem organizados em cooperativas, com toda infraesttrutura e condições dignas de trabalho, inclusive com possibilidade de aumento da receita”, conclui.
Fonte: http://dm.com.br/texto/110627-criarao-aterros-enterrarao-rendas

 

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